A escolha da profissão é sem dúvida uma das decisões mais complexas na vida das pessoas. Muitos dão prioridade ao retorno financeiro, outros fazem sua escolha de forma errada por não terem maturidade suficiente para a escolha certa. Existem ainda os que escolhem a carreira por influências dos pais. Fato é que grande parte de pessoas ignoram o fator mais importante, a felicidade em fazer o que se gosta, em fazer o que se tem talento, optando por arquivar seus sonhos.
Entretanto, uma parcela dos que optam pela busca de uma carreira profissional sem levar em conta o que diz o coração, ainda que consigam um lugar de destaque no concorrido mercado de trabalho, em determinada fase da vida resolvem buscar o sonho arquivado.
Os motivos para essa busca são variados: filhos, família, qualidade de vida, insatisfação pessoal, mas todos são unânimes em afirmar que é preciso coragem.
Para o ex-publicitário Emerson Tononi, é necessário ter coragem diariamente, pois para ele existe a possibilidade de, no meio do processo de mudança, a pessoa ser tomada por um sentimento de medo e voltar atrás.
Com a carreira concretizada há mais de 10 anos, Emerson resolveu investir na carreira de coach de vida e se tornou um profissional que ajuda as pessoas em seus relacionamentos afetivos.
?Trabalhei em grandes agências de propaganda do estado, fui professor de pós-graduação em marketing, tinha uma vida financeira estabilizada e nome no mercado, mas chegou um momento em que não estava satisfeito e queria mudar.
Não foi uma mudança impensada, pesquisei, me informei e me preparei para enfrentar o desafio. Entretanto, foi preciso uma boa dose de coragem para deixar algo que eu dominava e me arriscar em algo em que eu seria um recém-chegado. Tive medo, mas não deixei que ele me paralisasse. Ter coragem não é não ter medo. Ter coragem é seguir apesar do medo. O medo ajuda a gente a ser prudente?, afirmou.
Emerson se considera muito mais feliz hoje no início da nova carreira e acredita que as chances de conseguir atingir o mesmo padrão financeiro que tinha na antiga carreira ou até mesmo superá-lo, são grandes.
A psicóloga e consultora de Recursos Humanos Jaciara Pinheiro, afirma que a mudança não é fácil, que é preciso estar consciente desse desejo e planejá-lo. ?Não deve ser uma atitude tomada por impulso. É preciso calma, conhecimento sobre a nova carreira, criar relações e fazer contatos e, principalmente, fazer um planejamento financeiro até que a nova carreira proporcione estabilidade. Se não houver toda essa construção, a possibilidade de dar errado é muito grande?, frisou.
Essa preparação defendida pela psicóloga fez parte do processo de mudança profissional da personal organizer Ana Cláudia Jacob, que encerrou sua carreira como engenheira civil em uma renomada empresa capixaba.
?Eu me preparei, fui pesquisando sobre a profissão de personal organizer, acompanhando o mercado e abri uma empresa, a Impacto Soluções em Organização. Mesmo consciente da minha escolha, tive que reunir forças para pedir demissão. Mas a coragem foi algo que trabalhei dentro de mim, pois se por um lado eu tinha uma vida financeira tranquila e podia proporcionar conforto para minha família, por outro eu não conseguia participar da vida dos meus filhos e isso não me fazia feliz?, ponderou.
Para a coach Maria Helena Magalhães, além dessa preparação para enfrentar os desafios do mercado na nova carreira, é necessário autoconhecimento, é necessário entrar em contato consigo e descobrir seus reais valores.
?É preciso reabrir o arquivo de sonhos, se permitir correr riscos para realizar a mudança e aceitar a responsabilidade que isso exige?, afirmou.
Maria Helena contou que procura estimular em seus clientes a busca de suas aptidões e talentos, pois em sua visão quando não batalhamos pelos nossos sonhos, nos colocamos a serviço dos sonhos dos outros, e aí somos candidatos à demissão.
?Quando descobrimos nosso dom, nosso melhor, entramos em sintonia com Deus porque Ele nos criou para sermos felizes. Quando Deus coloca uma semente em nosso coração, Ele nos dá condições para fazer com que ela germine e dê frutos. A vida tem que ser permeada de sonho e fé?, disse.
Foi a descoberta do talento artístico que assegura à artesã Kelly Santana a possibilidade de trabalhar em casa com a criação de peças infantis, dando a ela a oportunidade de participar da vida e da educação da filha de oito anos.
?A coragem de deixar minha profissão como administradora de empresas surgiu da necessidade de cuidar da minha filha. Foi uma decisão difícil, mas apoiada pelo meu marido. Hoje nosso padrão de vida é um pouco abaixo do que tínhamos antes, mas me sinto feliz em poder estar presente na vida dela?, assegurou.
Também foi a descoberta do dom culinário e o talento como empreendedora que levou a empresária Cristina Pascoli Tongo a criar a empresa Café Caramelo, marca reconhecida como o primeiro cappuccino em creme do Brasil.
Coragem não faltou à empresária que iniciou o negócio com apenas R$ 20,00 emprestados pelo marido. Com o dinheiro ela comprou o material necessário para fazer a receita, desenvolvida por ela, e começou a oferecer o produto pelo Facebook.
?As encomendas foram aumentando e percebi logo que o produto tinha potencial, então fui buscar informações. Estudei legislação de alimentos, fiz curso de barista para entender mais sobre café e também cursos de Gestão no Sebae ?ES, Senai e IEL. Estudei sobre franquias e desenvolvi um projeto de distribuidoras para meu produto. Atualmente já são 49 franquias no Estado e no ano passado começamos a exportar o Café Caramelo para a China, Coreia, Estados Unidos e Europa?, contou.
Cristina afirma que a coragem vem da força que busca em Deus diariamente. ?Hoje eu me sinto responsável por cada família que vive do trabalho do meu produto, Isso é muito sério. Todas as vezes que enfrento um obstáculo eu converso com Deus, para que Ele renove minhas forças.?
Maria Helena explica que a palavra coragem é uma associação entre a palavra latina cor, que tem como um dos significados a palavra coração, e o sufixo latino ? aticum, que é usado para indicar ação.
?Ter coragem é agir com o coração, mesmo que a razão esteja dizendo não. É deixar a zona de conforto, é trocar o certo pelo duvidoso e às vezes o processo é espinhoso, mas necessário. Vivemos em uma cultura que estimula a acomodação, o conformismo, mas acho que isso vem mudando e é muito positivo. As novas gerações não se fixam muito em empregos?, avaliou.
Foi exatamente por agir com coração e não querer fazer carreira na mineradora na qual trabalhou por oito anos que o empresário Vitor Andreão, 29 anos, formado em sistemas de informação, pediu demissão.
Ele e a esposa são proprietários do cerimonial infantil Ilha Kids, de um buffet externo e do cerimonial Grand Royal, projetado para atender um público que busca qualidade nos mínimos detalhes
?Dá um frio na barriga porque até o negócio que a gente sonha sair do contexto da ideia e ser executado com sucesso, leva um tempo. Mas valeu a pena, optei pelo que eu acreditava e a gente tem que correr atrás do que gosta, do que a gente acredita. O importante é a gente ser feliz no caminho. Ainda estou no caminho, mas estou feliz?, relatou.
Felicidade também é o sentimento que a artista plástica Cris Simoura leva no coração. Ela não estava feliz com a profissão na área da metalurgia e mudanças em sua escala de trabalho a desmotivaram ainda mais.
?Eu queria mudar, mas ainda não sabia o que fazer. Mesmo tendo muitos benefícios na empresa, pedi demissão e segui meu coração. Muitos questionaram minha atitude, mas eu sabia que aquela carreira não me fazia feliz. Prestei vestibular para artes plásticas e descobri na fotografia, profissão do meu marido, meu grande talento?, contou.
A escolha inicial na área de metalurgia aconteceu, segundo Cris, por ser um curso que não precisaria de investimento dos pais. De família simples, ela se viu na situação de ter que optar pelo curso para que seus estudos não pesassem no orçamento da família.
?A fotografia me trouxe muitas coisas boas e a mudança que eu fiz na vida precisou de muita coragem. Pensei muito, pesei as consequências, mas a força interior da mudança foi maior que o medo. O importante é ser feliz. As portas se abrem quando a gente está feliz?, finalizou.
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